quarta-feira, 7 de julho de 2010

Ao Pai-Xamã

Para Roberto Piva



Tu, que fizestes de mim neto dos beats
Agora decides chocalhoar esferas distantes
Tu, nobre pai-xamã das letras
Logo tu que, em brasa, com tua alma maldita
Com tua dita alma, ditastes palavras ao vento
Sementes, d'onde brotaram pequenos xamãs
E o verbo se fez pó

O pó que usaremos para ressuscitá-lo
Amanhã e sempre.

Morre o poeta Roberto Piva


O poeta Roberto Piva, autor de Paranoia, considerada sua obra prima

No http://ultimosegundo.ig.com.br

Fortemente influenciado pelos beats, ele foi uma das vozes mais dissonantes do meio artístico de São Paulo

O poeta Roberto Piva morreu ontem em São Paulo, aos 72 anos, com falência múltipla dos órgãos decorrente de insuficiência renal. Um câncer na próstata o havia levado ao Hospital das Clínicas, onde estava internado desde maio. O câncer atingiu os ossos.

Poeta de importância nacional, Piva nasceu em São Paulo, onde escreveu sua obra prima, a coleção de poemas Paranoia, publicada em 1963. Também foi uma voz dissonante nos meios artísticos da cidade, num tempo em que os escritores ainda se juntavam em grupos.

Ele fez parte de uma geração brilhante mas posteriormente marginalizada, com fortes influências dos poetas beats americanos. Apesar disso, Piva não era facilmente classificável.

O ministro da Cultura Juca Ferreira divulgou nota em que afirma: "Se a morte de um poeta é sempre uma tragédia, a morte de alguém como Piva é um imenso baque a mais, já que a energia que alimentava sua poesia era a exaltação da carnalidade. Essa sua energia enfrentou, nos anos 60 e 70, além da repressão, a estranheza que se voltava contra pregadores, como ele, de uma poética do desregramento. Piva assumiu a responsabilidade de expressar as nossas carências e delírios extremos".
 
O poeta foi cremado na manhã deste domingo.

domingo, 4 de julho de 2010

Sou Riso


 Teu sorriso exposto
É secreto para quem sabe enxergar
Pois teu ser não é figurativo
É promessa de Lua cheia
No meio de uma tempestade.

Teu sorriso está ali...
Mas só quem saber enxergar
Sabe que ele é mais

Que você é mais.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Mimoso (ou Escada da Boa Viagem)





Pega minha camisa, faz de lençol celeste
Nessa cama caída que é o chão da tua escada
Me abraça e dorme, me ama e geme
Me olha como se estivesse sendo atacada

Em nosso ninho clandestino
Aproveita e me faz menino
Marmanjo anjo

Enquanto te faço mulher
Se você for ou estiver
Garota marota

Não tenha medo, ninguém vai tentar
Nos acordar desse sonho que é quase amar
Numa quase cama, nessa quase noite
É tão bom, meu bem, quase te namorar

Que tua quase coragem
Seja a nossa passagem
Nos leve à leveza

E que teu quase prazer
Seja, ao menos, lazer
Afim até o fim


Pega minha camisa, põe nesse chão
Te cubro se fizer frio ou se o calor chegar
O calor é menino, minha fria mulher
Não deixe de, com os olhos, me esquentar

É preciso precisão

Subindo as escadas
Deste leito das fadas
Deste meio
Do mundo inteiro

Como se eu tivesse
Quinze anos
Pela oitava vez

Não se torne outras
Pois já tive todas
Pra poder ter você

Deixa chover

Se for pra chover
Deixa nos molhar
Que eu quero ver
Teu sertão virar amar

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Não tá dando!

Gente, o "Palavras" tá parado.
Pois as palavras estão presas na garganta.
Ao contrário do choro.

Desculpa.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Fragmento I


A aurora é dura e rigorosa. Temo pelo dia, temo pela noite, sou um temeroso esperto e sagaz, mas temo, temo, inclusive, a possibilidade de não temer, de seguir como suicida covarde, esperando que alguém faça comigo o que não tenho coragem de fazer com minhas próprias mãos. Sou uma canção louca, um micróbio macrocósmico enfiado na lama recifense ignorando os pedidos de esmolas, os oferecimentos vaginais das putas pelos becos, pontes, avenidas, enfim, ignoro a miséria financeira e espiritual para me sentir melhor, para me sentir mais livre numa cidade que me prende com as raízes aéreas da vegetação dos manguezais. Já é noite, basta uma vírgula, basta um ponto final para que o dia vire noite em meu repente prosaico.

Encaro a miséria sendo vista como brincadeira de criança pelas madames pseudo-caridosas que chupam os meninos de rua em anti-higiênico fetiche, bêbadas, forçando um sotaque francês para parecerem mais caridosas ainda, pois, uma coisa é ser caridosa, outra coisa é ser caridosa falando francês. Mas não me lembro bem onde, não lembro quando, não lembro como. Minha amnésia que, diga-se de passagem, não foi provocada nenhuma droga, medicamento ou pancada, é uma amnésia ontológica, existencial em sua essência.

Caminho pela ponte giratória, minutos atrás, estava eu e um amigo bebendo aguardente com limão no beco da fome, eram 11:30 da noite quando chegamos lá, num Domingo onde não me sentia criança, como Chico Science cantarolava, me sentia um velho, um velho com ¼ de século, escutando a tv do bar, o único nas redondezas aberto, junto com um bom amigo, vendo as moças cults residentes no bairro da Boa Vista em suas conversas redundantes, apresentando seus conceitos completamente desassociados da realidade. Também pudera, o máximo de aproximação com a realidade propriamente dita é a masturbação feita num garoto de 13 anos que a pede esmola. Um troca de favores simples e comum nessa cidade, Recife, Hellcife para os mais íntimos. Minha amada cidade, meu tema e meu lema.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Menina Oxum



Menina que foge, inconsciente
Desse meu amor tão decente
Cheia de medo de o mundo enfrentar

Eu sei que estás triste e doente
Pois enfeitiçaram a tua mente
Mas tua cura eu vou buscar no gongá

É Cachoeira, é Rio Preto
É Dendê...
É a força da Jurema
É Saravá!

Pois Oxum é a tua mãe que respeito
E em meu peito, também Yemanjá
Junto à luz do teu pai, Oxalá

Te aviso que essa demanda cruzada
Eu enfrentarei, menina, até o fim
Pois que deve a Deus, paga a Deus
Quem deve a mim, paga a mim!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Pontes Sobre o Vazio



Viajante amortalhado 
O que quer olhos
O que espera

O que não é agradável
E tem silêncios

O que caminha
O que vigia
E tem pensamentos

Escondidos

O que tritura a rocha
E mesmo os rostos

Com olhos

Que não constroe pontes sobre o vazio...
Que não constroe pontes sobre o vazio...

Que não constroe pontes sobre o vazio...

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Menina-Flor




Ela é a menina-flor que brotou em meu jardim de pedras. Menina-flor que chora gotas de orvalho celeste ao ferir ou ao ver os ferimentos alheios. Menina-flor que sente medo da chuva, que sente medo do sol, mas que adora a garoa iluminada pelos raios solares que vencem as nuvens carregadas formando um belo arco-íris que parece sair de seu olhar sereno e indescritivelmente belo.

Ela é menina-flor portadora de um sorriso que faz a gravidade se impor às armas que, indefesas, caem no chão a cada rajada de luz oriunda de seu ser. Menina-flor que, quando me dá um beijo rasante, me faz voar, me faz levitar como luz cósmica, como brisa celestial. Ela é a menina-flor que exala, emana, multiplica a paz.

Eu sou um menino-sorte, pois ela é minha flor, ela é minha menina.

Catinga da Caatinga.


Para Léo Zadi

Ele é um peido que surge incensando o ar das idéias com um cheiro envenenado, uma catinga de caatinga beira-mar que invade as narinas do pensamento, recobrindo de névoas as mentes que deixam-se guiar pelo cheiro do blues azul do bode repentista e pelo chamado do lagarto da língua azul que acende, com a própria língua, o verbo que procura.

Ele é, também, um peido num Arruda lotado: o cheiro do gol Coral profetizado em flatulência repleta de zadiação. Ele é um peido-ninja: quanto mais silencioso, mais perigo oferece às narinas conservadoras, acostumadas com o mau-cheiro, que, por conveniência é aceito e tido como padrão de aroma.

Ele é um peido que altera a gravidade ao ponto certo para que malabares metafísicos não caiam no chão. É, também, o peido que faz o chão desabar e tudo levitar: os mirabolantes malabares, os mártires bodes repentistas, os lagartos xamãs da língua azul, as camisolas do dia, os véus da noite, os sorrisos das meninas, os caixas de som, as cuícas, e, sobretudo, faz levitar o ser que ele está. Mais um ser a zadiar, mas um ser zadio.

Simplesmente Zadi, parceiro e amigo ele é.