Fortemente influenciado pelos beats, ele foi uma das vozes mais dissonantes do meio artístico de São Paulo
O poeta Roberto Piva morreu ontem em São Paulo, aos 72 anos, com falência múltipla dos órgãos decorrente de insuficiência renal. Um câncer na próstata o havia levado ao Hospital das Clínicas, onde estava internado desde maio. O câncer atingiu os ossos.
Poeta de importância nacional, Piva nasceu em São Paulo, onde escreveu sua obra prima, a coleção de poemas Paranoia, publicada em 1963. Também foi uma voz dissonante nos meios artísticos da cidade, num tempo em que os escritores ainda se juntavam em grupos.
Ele fez parte de uma geração brilhante mas posteriormente marginalizada, com fortes influências dos poetas beats americanos. Apesar disso, Piva não era facilmente classificável.
O ministro da Cultura Juca Ferreira divulgou nota em que afirma: "Se a morte de um poeta é sempre uma tragédia, a morte de alguém como Piva é um imenso baque a mais, já que a energia que alimentava sua poesia era a exaltação da carnalidade. Essa sua energia enfrentou, nos anos 60 e 70, além da repressão, a estranheza que se voltava contra pregadores, como ele, de uma poética do desregramento. Piva assumiu a responsabilidade de expressar as nossas carências e delírios extremos".
Pega minha camisa, faz de lençol celeste Nessa cama caída que é o chão da tua escada Me abraça e dorme, me ama e geme Me olha como se estivesse sendo atacada
Em nosso ninho clandestino Aproveita e me faz menino Marmanjo anjo
Enquanto te faço mulher Se você for ou estiver Garota marota
Não tenha medo, ninguém vai tentar Nos acordar desse sonho que é quase amar Numa quase cama, nessa quase noite É tão bom, meu bem, quase te namorar
Que tua quase coragem Seja a nossa passagem Nos leve à leveza
E que teu quase prazer Seja, ao menos, lazer Afim até o fim
Pega minha camisa, põe nesse chão Te cubro se fizer frio ou se o calor chegar O calor é menino, minha fria mulher Não deixe de, com os olhos, me esquentar
É preciso precisão
Subindo as escadas Deste leito das fadas Deste meio Do mundo inteiro
Como se eu tivesse Quinze anos Pela oitava vez
Não se torne outras Pois já tive todas Pra poder ter você
Deixa chover
Se for pra chover Deixa nos molhar Que eu quero ver Teu sertão virar amar
A aurora é dura e rigorosa. Temo pelo dia, temo pela noite, sou um temeroso esperto e sagaz, mas temo, temo, inclusive, a possibilidade de não temer, de seguir como suicida covarde, esperando que alguém faça comigo o que não tenho coragem de fazer com minhas próprias mãos. Sou uma canção louca, um micróbio macrocósmico enfiado na lama recifense ignorando os pedidos de esmolas, os oferecimentos vaginais das putas pelos becos, pontes, avenidas, enfim, ignoro a miséria financeira e espiritual para me sentir melhor, para me sentir mais livre numa cidade que me prende com as raízes aéreas da vegetação dos manguezais. Já é noite, basta uma vírgula, basta um ponto final para que o dia vire noite em meu repente prosaico.
Encaro a miséria sendo vista como brincadeira de criança pelas madames pseudo-caridosas que chupam os meninos de rua em anti-higiênico fetiche, bêbadas, forçando um sotaque francês para parecerem mais caridosas ainda, pois, uma coisa é ser caridosa, outra coisa é ser caridosa falando francês. Mas não me lembro bem onde, não lembro quando, não lembro como. Minha amnésia que, diga-se de passagem, não foi provocada nenhuma droga, medicamento ou pancada, é uma amnésia ontológica, existencial em sua essência.
Caminho pela ponte giratória, minutos atrás, estava eu e um amigo bebendo aguardente com limão no beco da fome, eram 11:30 da noite quando chegamos lá, num Domingo onde não me sentia criança, como Chico Science cantarolava, me sentia um velho, um velho com ¼ de século, escutando a tv do bar, o único nas redondezas aberto, junto com um bom amigo, vendo as moças cults residentes no bairro da Boa Vista em suas conversas redundantes, apresentando seus conceitos completamente desassociados da realidade. Também pudera, o máximo de aproximação com a realidade propriamente dita é a masturbação feita num garoto de 13 anos que a pede esmola. Um troca de favores simples e comum nessa cidade, Recife, Hellcife para os mais íntimos. Minha amada cidade, meu tema e meu lema.
Ela é a menina-flor que brotou em meu jardim de pedras. Menina-flor que chora gotas de orvalho celeste ao ferir ou ao ver os ferimentos alheios. Menina-flor que sente medo da chuva, que sente medo do sol, mas que adora a garoa iluminada pelos raios solares que vencem as nuvens carregadas formando um belo arco-íris que parece sair de seu olhar sereno e indescritivelmente belo.
Ela é menina-flor portadora de um sorriso que faz a gravidade se impor às armas que, indefesas, caem no chão a cada rajada de luz oriunda de seu ser. Menina-flor que, quando me dá um beijo rasante, me faz voar, me faz levitar como luz cósmica, como brisa celestial. Ela é a menina-flor que exala, emana, multiplica a paz.
Eu sou um menino-sorte, pois ela é minha flor, ela é minha menina.
Ele é um peido que surge incensando o ar das idéias com um cheiro envenenado, uma catinga de caatinga beira-mar que invade as narinas do pensamento, recobrindo de névoas as mentes que deixam-se guiar pelo cheiro do blues azul do bode repentista e pelo chamado do lagarto da língua azul que acende, com a própria língua, o verbo que procura.
Ele é, também, um peido num Arruda lotado: o cheiro do gol Coral profetizado em flatulência repleta de zadiação. Ele é um peido-ninja: quanto mais silencioso, mais perigo oferece às narinas conservadoras, acostumadas com o mau-cheiro, que, por conveniência é aceito e tido como padrão de aroma.
Ele é um peido que altera a gravidade ao ponto certo para que malabares metafísicos não caiam no chão. É, também, o peido que faz o chão desabar e tudo levitar: os mirabolantes malabares, os mártires bodes repentistas, os lagartos xamãs da língua azul, as camisolas do dia, os véus da noite, os sorrisos das meninas, os caixas de som, as cuícas, e, sobretudo, faz levitar o ser que ele está. Mais um ser a zadiar, mas um ser zadio.
Sim, é gratuito, mas quem disse que é de graça? Você agora está gastando energia, tempo, vida útil de sua visão, entre outras milhares de coisas que são finitas e que você deveria estar poupando ao invés de ler este veiculo de transmissão da ignorância.
Mesclarei textos novos e antigos, coisas ruins e coisas muito ruins.
Aqui serão postadas diversas categorias de ignorância, como a esportiva, a política, a literária e com uma preferência para a ignorância poética (sim, ela existe). Para facilitar a vida daqueles que procurarem defeitos em meus textos, não os editarei... ignorância boa é ignorância in natura!
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