quarta-feira, 30 de junho de 2010

Mimoso (ou Escada da Boa Viagem)





Pega minha camisa, faz de lençol celeste
Nessa cama caída que é o chão da tua escada
Me abraça e dorme, me ama e geme
Me olha como se estivesse sendo atacada

Em nosso ninho clandestino
Aproveita e me faz menino
Marmanjo anjo

Enquanto te faço mulher
Se você for ou estiver
Garota marota

Não tenha medo, ninguém vai tentar
Nos acordar desse sonho que é quase amar
Numa quase cama, nessa quase noite
É tão bom, meu bem, quase te namorar

Que tua quase coragem
Seja a nossa passagem
Nos leve à leveza

E que teu quase prazer
Seja, ao menos, lazer
Afim até o fim


Pega minha camisa, põe nesse chão
Te cubro se fizer frio ou se o calor chegar
O calor é menino, minha fria mulher
Não deixe de, com os olhos, me esquentar

É preciso precisão

Subindo as escadas
Deste leito das fadas
Deste meio
Do mundo inteiro

Como se eu tivesse
Quinze anos
Pela oitava vez

Não se torne outras
Pois já tive todas
Pra poder ter você

Deixa chover

Se for pra chover
Deixa nos molhar
Que eu quero ver
Teu sertão virar amar

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Não tá dando!

Gente, o "Palavras" tá parado.
Pois as palavras estão presas na garganta.
Ao contrário do choro.

Desculpa.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Fragmento I


A aurora é dura e rigorosa. Temo pelo dia, temo pela noite, sou um temeroso esperto e sagaz, mas temo, temo, inclusive, a possibilidade de não temer, de seguir como suicida covarde, esperando que alguém faça comigo o que não tenho coragem de fazer com minhas próprias mãos. Sou uma canção louca, um micróbio macrocósmico enfiado na lama recifense ignorando os pedidos de esmolas, os oferecimentos vaginais das putas pelos becos, pontes, avenidas, enfim, ignoro a miséria financeira e espiritual para me sentir melhor, para me sentir mais livre numa cidade que me prende com as raízes aéreas da vegetação dos manguezais. Já é noite, basta uma vírgula, basta um ponto final para que o dia vire noite em meu repente prosaico.

Encaro a miséria sendo vista como brincadeira de criança pelas madames pseudo-caridosas que chupam os meninos de rua em anti-higiênico fetiche, bêbadas, forçando um sotaque francês para parecerem mais caridosas ainda, pois, uma coisa é ser caridosa, outra coisa é ser caridosa falando francês. Mas não me lembro bem onde, não lembro quando, não lembro como. Minha amnésia que, diga-se de passagem, não foi provocada nenhuma droga, medicamento ou pancada, é uma amnésia ontológica, existencial em sua essência.

Caminho pela ponte giratória, minutos atrás, estava eu e um amigo bebendo aguardente com limão no beco da fome, eram 11:30 da noite quando chegamos lá, num Domingo onde não me sentia criança, como Chico Science cantarolava, me sentia um velho, um velho com ¼ de século, escutando a tv do bar, o único nas redondezas aberto, junto com um bom amigo, vendo as moças cults residentes no bairro da Boa Vista em suas conversas redundantes, apresentando seus conceitos completamente desassociados da realidade. Também pudera, o máximo de aproximação com a realidade propriamente dita é a masturbação feita num garoto de 13 anos que a pede esmola. Um troca de favores simples e comum nessa cidade, Recife, Hellcife para os mais íntimos. Minha amada cidade, meu tema e meu lema.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Menina Oxum



Menina que foge, inconsciente
Desse meu amor tão decente
Cheia de medo de o mundo enfrentar

Eu sei que estás triste e doente
Pois enfeitiçaram a tua mente
Mas tua cura eu vou buscar no gongá

É Cachoeira, é Rio Preto
É Dendê...
É a força da Jurema
É Saravá!

Pois Oxum é a tua mãe que respeito
E em meu peito, também Yemanjá
Junto à luz do teu pai, Oxalá

Te aviso que essa demanda cruzada
Eu enfrentarei, menina, até o fim
Pois que deve a Deus, paga a Deus
Quem deve a mim, paga a mim!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Pontes Sobre o Vazio



Viajante amortalhado 
O que quer olhos
O que espera

O que não é agradável
E tem silêncios

O que caminha
O que vigia
E tem pensamentos

Escondidos

O que tritura a rocha
E mesmo os rostos

Com olhos

Que não constroe pontes sobre o vazio...
Que não constroe pontes sobre o vazio...

Que não constroe pontes sobre o vazio...

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Menina-Flor




Ela é a menina-flor que brotou em meu jardim de pedras. Menina-flor que chora gotas de orvalho celeste ao ferir ou ao ver os ferimentos alheios. Menina-flor que sente medo da chuva, que sente medo do sol, mas que adora a garoa iluminada pelos raios solares que vencem as nuvens carregadas formando um belo arco-íris que parece sair de seu olhar sereno e indescritivelmente belo.

Ela é menina-flor portadora de um sorriso que faz a gravidade se impor às armas que, indefesas, caem no chão a cada rajada de luz oriunda de seu ser. Menina-flor que, quando me dá um beijo rasante, me faz voar, me faz levitar como luz cósmica, como brisa celestial. Ela é a menina-flor que exala, emana, multiplica a paz.

Eu sou um menino-sorte, pois ela é minha flor, ela é minha menina.

Catinga da Caatinga.


Para Léo Zadi

Ele é um peido que surge incensando o ar das idéias com um cheiro envenenado, uma catinga de caatinga beira-mar que invade as narinas do pensamento, recobrindo de névoas as mentes que deixam-se guiar pelo cheiro do blues azul do bode repentista e pelo chamado do lagarto da língua azul que acende, com a própria língua, o verbo que procura.

Ele é, também, um peido num Arruda lotado: o cheiro do gol Coral profetizado em flatulência repleta de zadiação. Ele é um peido-ninja: quanto mais silencioso, mais perigo oferece às narinas conservadoras, acostumadas com o mau-cheiro, que, por conveniência é aceito e tido como padrão de aroma.

Ele é um peido que altera a gravidade ao ponto certo para que malabares metafísicos não caiam no chão. É, também, o peido que faz o chão desabar e tudo levitar: os mirabolantes malabares, os mártires bodes repentistas, os lagartos xamãs da língua azul, as camisolas do dia, os véus da noite, os sorrisos das meninas, os caixas de som, as cuícas, e, sobretudo, faz levitar o ser que ele está. Mais um ser a zadiar, mas um ser zadio.

Simplesmente Zadi, parceiro e amigo ele é.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Rap do Seu Biu



Onde é que já se viu?
Onde é que já se viu?
Loló na venda de Seu Biu!

E o que é ainda pior...
E o que é ainda pior...
Seu Biu cheirou todo o loló!

Quando eu era criança
Eu aprendi com a vovó
Pra passar lá em seu Biu
Quando eu quisesse loló

Mas ela nunca imaginou
O que um dia ocorreria
Foi que seu Biu cheirou
Toda a mercadoria

Onde é que já se viu?
Onde é que já se viu?
Loló na venda de Seu Biu!

E o que é ainda pior...
E o que é ainda pior...
Seu Biu cheirou todo o loló!

Seu Biu é um boa-praça
Faz a frente pra vizinhança
Ele vende um bom loló
Pro velhinho e pra criança

Mas é bom comprar depressa
Pra não achar só o pó
Compre antes que seu Biu
Inale todo o loló

Onde é que já se viu?
Onde é que já se viu?
Loló na venda de Seu Biu!

E o que é ainda pior...
E o que é ainda pior...
Seu Biu cheirou todo o loló!

Um dia rolou fuleragem
Seu Biu foi denunciado
Chamaram uns policiais
Pra que ele fosse indiciado

Mas quando os “home” chegaram
Seu Biu tava numa maior
Rindo deles, muito doido
Encharcado de loló

Onde é que já se viu?
Onde é que já se viu?
Loló na venda de Seu Biu!

E o que é ainda pior...
E o que é ainda pior...
Seu Biu cheirou todo o loló! 

(João Paulo Güma & Biagio Pecorelli)

Não Chores Por Nós, Argentina!



Recentemente a Argentina conquistou mais um título que o Brasil não tem. Não me refiro a títulos no esporte... falo da conquista de um outro tipo de competição, desta vez, artística: o Oscar. A inveja que, num momento como esses, temos de nossos “hermanos” deveria, por outro lado, nos fazer pensar nos fatores que fazem da Argentina uma indústria cinematográfica ganhadora de uma estatueta da Academia, enquanto o Brasil é uma indústria que, há anos, sequer disputa a etapa final da competição.

É bem verdade que arte é arte em qualquer local quando o assunto é sua concepção. Nãop é pelo fato de um país ser mais ou menos desenvolvido que um artista o a arte de lá oriunda será de maior ou menor qualidade. Ela é uma ação inicialmente individual, que sai da mente e do espírito do artista que, no momento em que ela é revelada ao público, perde o controle da própria obra que torna-se coletiva e de livre interpretação.

Mas no caso da “Sétima Arte”, a verba destinada ao filme e o incentivo para a produção, às vezes, separa um bom filme de um vencedor de Oscar, ou mesmo de uma obra-prima. Como no futebol, não é o valor gasto que faz o vencedor. Questões logísticas e escolha das peças humanas e direção a ser tomada (ou roteiro, se preferirem) obviamente são importantes, mas é o trabalho minucioso do comandante, a preocupação com os mínimos detalhes do começo ao fim da jornada é que faz o diferencial.

No Brasil, há uma lei de incentivo à cultura que disponibiliza uma verba razoável ao cinema nacional. O problema é para quais filmes essa verba acaba sendo direcionada. Nos últimos anos, por exemplo, há uma tendência que vem dominando a cena cinematográfica brasileira: o cinema usado como extensão da televisão. Mas o que isso significa?

Significa que cada vez mais filmes comercialescos, com diretores, atores, e pior, enredos seguindo os moldes “globais” são produzidos. Como a intenção é, meramente, entreter (entenda-se alienar) o público, comédias burras, dramas vazios, romances clichês (com a sub-espécie “comédias românticas burras e clichês” facilmente encontradas) e uma porção de outras categorias de lixo cultural são produzidas com o dinheiro do contribuinte para gerarem lucro, sem se preocuparem com fatores estéticos indispensáveis para que aquilo possa ser considerado arte de qualidade.

Como conseqüência disso, as obras que realmente deveriam receber essas verbas vão sendo escanteadas, e elas, produções que realmente elevariam o conceito do cinema brasileiro à nível mundial, por falta de apoio não são concebidas da forma que deveriam para serem consideradas grandes filmes.

É notório que desde a obra-prima de Fernando Meireles, “Cidade de Deus”, nenhum outro filme brasileiro foi indicado ao Oscar. O último filme de destaque internacional foi “Tropa de Elite” que, por coincidência ou não, revela uma face negra do Brasil, assim como o filme de Meireles. Porém, no segundo filme, já encontramos características de um enlatamento do cinema nacional.

Isso não quer dizer que bons filmes não são mais produzidos no Brasil, apenas que o potencial das produções é prejudicado por essa conjuntura. Até mesmo a distribuição para os cinemas fica difícil com a invasão de filmes cheios de pseudo-artistas que atraem o público e geram aquilo que os donos de cinema querem: lucro.
Quanto à Argentina, sinceramente não conheço a política de incentivo à cultura de lá, muito menos assisti o filme em questão, sequer me dei ao trabalho de tentar me lembrar de seu nome. Pode, ele, até ser um oásis no deserto como foi “Central do Brasil” nos tempos em o incentivo era bem menor.

É fato que os critérios devem ser alterados para a distribuição das verbas públicas e as grandes produtoras devem bancar sozinhas seus filmes comercialescos ao invés de retirar dos potenciais grandes filmes a verba e o espaço que são importantíssimos para que eles vinguem.

Freud-Frevo


Freud é um frevo tronxo
Freud é um entronxa-frevo
O tronxo é um baita
De um frevo-Freud

Freud é um frevo com medo

Freud nada mais é
De que um frevo tronxo
Alterado por ventos, sonhos
Livros e pênis tronxos

Que ele conheceu freudiando
Pelas íngrimes ladeiras do ID
Mil superegos num cabide
Fantasias de um ego frevando